Querido diário,
Quando acordou, cinco anos mais tarde, ele havia mudado. A paulada aumentara sua capacidade cerebral de forma que, agora, tudo que Chafudfórnio desejava se tornava realidade. Demorou algumas semanas para que ele se desse conta disso. E quando finalmente entendeu como usar seus poderes, ele tratou de usufruir deles plenamente.
Ganhou na loteria e passou a viver confortavelmente. Entretanto, ele não era ganancioso. Desejou apenas uma quantidade de dinheiro que permitisse a ele ter um bom padrão de vida. Apesar de ter se relacionado com inúmeras garotas (afinal era só desejar), passado algum tempo ele encontrou a mulher de sua vida (“Desejo encontrar a mulher perfeita!”), com quem logo se casou.
A realização de seus desejos ia de coisas triviais, do tipo “Quero chegar ao banco e não enfrentar fila!”, “Não quero ficar preso em congestionamentos”, “Ao chegar à padaria quero que o pão esteja quente”, a coisas importantes “Desejos boas safras de alimentos”, “Desejo que tal bandido seja condenado”, “Que o Roriz nunca mais se eleja”.
Chafudfórnio não era um cara esbanjador. Apesar de poder ter o que quisesse, ele não tinha desejos que influenciassem o cotidiano das pessoas. Procurava não interferir muito. “Só o essencial” pensava ele. Porém, apesar disso, Chafudfórnio tomava muitas precauções para manter seus poderes
Então, ele viveu dessa forma por proveitosos vinte e sete vírgula oitenta e nove meses. Depois desse tempo, a realização de seus desejos começou a trazer-lhe aborrecimentos. Todos os seus desejos, mesmo os inconscientes e os que ele apenas pensava em desejar, se realizavam de imediato. Chafudfórnio não tinha coisas desagradáveis para colocá-las do jeito que ele queria. Absolutamente tudo estava sempre perfeito. É claro, que à primeira vista, isso pode parecer ótimo. Mas para ele, isso não era tão legal como fora nos primeiros dias. Ele queria algo diferente para tirá-lo daquela rotina de mesmice. Ele sentia falta de objetivos a alcançar, pois todos eram alcançados automaticamente à medida que ele apenas pensava.
Inacreditavelmente, Chafudfórnio viu-se diante de um estranho e curioso paradoxo, o qual chamaremos de Paradoxo Chafudforniano: O fato de sua vida não ter problemas tornou-se um problema. O único problema. Um grande problema. Um problema aparentemente insolúvel que passou a incomodá-lo de forma gradual e persistentemente.
Após incontáveis horas pensando a respeito, o personagem principal dessa história chegou à conclusão que já tinha aproveitado ao máximo os poderes que descobrira e que a única maneira de se livrar do problema que o incomodava tanto era abrir mão disso.
“Desejo que meus desejos não mais se realizem!” mentalizou Chafudfórnio. Porém, para sua surpresa, tal desejo, o qual ele esperava ser o último, não se realizou. Afinal, esse pensamento também se apresentava deveras paradoxal. E, da mesma forma que você deve estar confuso agora, o nosso mestre dos desejos, também estava, diante daquela situação inusitada, inesperada e imprevisível.
Faz-se necessário relatar que a partir desse momento, Chafudfórnio desesperou-se. A decisão de abandonar os poderes que possuía foi difícil, mas ele optou por ela porque acreditava que solucionaria seu problema. Que seu tormento teria fim. Entretanto, a percepção de que seu martírio se prolongaria indefinidamente afetou de forma bastante acentuada a sua sanidade.
Os próximos acontecimentos ocorreram todos em questão de segundos.
Chafudfórnio realmente não queria mais possuir tais poderes. Chegou o ponto em que todos os benefícios advindos do uso dos poderes foram subjugados pelo agora insuportável e incômodo Paradoxo Chafudforniano. E foi então que brotou na sua cabeça um outro possível remédio contra a iminente loucura: acabar com a própria vida!
Talvez o estado de nervos em que ele se encontrava influenciou na decisão, mas o fato é que Chafudfórnio se agarrou a isso como a única solução. Uma solução que deveria ser aplicada ao problema imediatamente.
Lutando contra seu desejo inconsciente de sobrevivência, ele ordenou mentalmente “Desejo não desejar ser imortal”, pois se não o fizesse tudo estaria perdido. Estaria condenado àquilo para todo o sempre.
Logo em seguida, sem conceder a ele próprio o benefício de uma reflexão mais aprofundada sobre a decisão que estava tomando, Chafudfórnio gritou com todas as forças “Desejo morrer!” e assim aconteceu. Antes mesmo de seu grito parar de ecoar, seu corpo jazia sem vida no chão.
Relendo agora, até fiquei um pouco assustada! Até dá a impressão que eu era alguém próximo a esse tal de Chafudfórnio. Alguém para quem ele contou a história da vida dele. É muito estranho. Não é como um sonho normal. Eu, repentinamente, simplesmente sei todos esses detalhes da vida desse cara. Mas o mais interessante vem agora.
Em meio ao turbilhão de pensamentos fugazes que passavam pela cabeça dele em seus derradeiros momentos de ser vivente, Chafudfórnio desejou, meio que inconscientemente, que alguém soubesse de toda a história de sua vida e que esse alguém a divulgasse mundo afora.
Aparentemente, esse alguém sou eu. E cá estou eu, de certa forma, divulgando a “história” dele. Será que eu deveria ficar com medo de morrer?
Hahaha... Que bobagem, né? Hoje é meu aniversário de quinze anos. Justamente numa data importante dessas, até parece que eu iria morrer assim, de forma tão inexplicável e repentin
Um comentário:
Eu venho correndo pra casa depois de um dia exaustivo, ligo o pc pra saber o q vc quer me mostrar, me assusto ao saber q vc é ela (assustada!), penso que o blogger comeu o final do texto pq não tem pontuação...que dia emocionante! w00t
Queria escrever assim =|
Bjones
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