sexta-feira, 28 de dezembro de 2007

Mulheres apaixonadas

Maria era uma criança normal. Saudável, inteligente, amável, enfim, era uma criança feliz. Porém havia algo que a deixava incomodada e profundamente triste: o gigantesco tamanho de seus pés.

As outras crianças admiravam-se da desproporcionalidade entre a estatura de Maria e as dimensões dos pés dela. Comentavam, apontavam, riam e alguns sujeitos chegavam a colocar-lhe apelidos. Esses sujeitos não eram poucos e, consequentemente, os apelidos também não. Maria passou a ser conhecida como Maria Sapatão.

Sua mãe a consolava dizendo que à medida que ela fosse crescendo, a desproporcionalidade diminuiria. Essa esperança fazia Maria agüentar as “brincadeiras” de seus “colegas”.

Entretanto, quanto mais Maria crescia, mais seus pés cresciam também. Aos vinte anos de idade Maria tinha que mandar fazer calçados sob medida, afinal, não é em toda loja que se encontra sapatos e sandálias tamanho sessenta e seis.

Todos os médicos que ela havia procurado até então disseram que nada podiam fazer em relação ao problema de Maria. Foi aí que ela conheceu a Dra. Frida Streiner.

A dra. Streiner era uma médica alemã e, logo que teve conhecimento, se interessou pelo caso de Maria. Constatou que ela padecia de hiper-desenvolvimento tarsiano metatársico, uma moléstia raríssima.

Frida Streiner convenceu Maria de que era possível fazer uma cirurgia para reduzir as medidas dos pés, mas deixou claro que seria uma cirurgia cara e perigosa, nunca realizada antes.

Maria foi a um programa televisivo dominical para conseguir recursos para custear seu tratamento. Após seus exagerados pés e dramatizações de sua vida serem exibidos durante todo o programa, ela conseguiu doações suficientes.

A dra. Streiner era a chefe da equipe de médicos que realizaria a cirurgia e assim que começaram os procedimentos pré-operatórios ela se ofereceu para ser responsável pela preparação psicológica da paciente. Explicava como seria a operação, alertava sobre os riscos, tranqüilizava Maria falando sobre o profissionalismo e capacitação da equipe etc.

Elas ficaram juntas durante a maior parte dos três meses da fase pré-operatória e seus laços de amizade se estreitaram. Um estreitamento excessivo, na opinião de alguns.

Maria sentia uma gratidão muito grande por Frida, diante da possibilidade de se ver livre dos pezões que tanto lhe causaram constrangimentos e aborrecimentos. À medida que dias foram passando, a afeição de uma para com a outra crescia, até chegar ao ponto em que elas se viram perdidamente apaixonadas. Um sentimento mútuo que se concretizou em algumas noites de intenso sexo lésbico.

Então, chegou o momento da operação. Dra. Streiner liderou a equipe competentemente e soube lidar muito bem com os imprevistos acontecidos durante a cirurgia. Cirurgia essa que, devido ao seu alto grau de dificuldade, durou aproximadamente oito horas, para cada pé, totalizando assim dezessete horas, contando a hora do almoço dos médicos.

A cirurgia obteve pleno êxito. Após noventa dias Maria já podia andar com seus novos pés que continuavam feios, porém pequenos.

Aproximadamente um ano depois, Maria se mudou para um país europeu, liberal e anti-conservadorista e casou-se com Frida. O curioso, contudo, é que, apesar de calçar trinta e três atualmente, ela continua sendo Maria Sapatão.

quinta-feira, 13 de dezembro de 2007

Sally & Connie

Sally e Connie eram amigas desde a infância. Moravam em casas vizinhas numa cidade do interior. Tinham a mesma idade. Sempre brincaram juntas, sempre estudaram juntas. Na mocidade, a amizade delas se fortaleceu significativamente e tornaram-se assim amigas inseparáveis.

Apesar de tamanha afinidade, cada uma tinha interesses diversos: Connie era muito ligada à imagem e à estética; queria sempre vestir as roupas da moda. Sonhava em ser famosa: começar como modelo, depois atriz, cantora e, por último, apresentadora de programas televisivos, posando nua uma ou duas vezes durante essa trajetória.

Já Sally se dedicava ao aprendizado das artes de advinhação: runas, tarot, búzios, baralho cigano, leitura de mão, bola de cristal etc. Também era conhecedora de astrologia e numerologia entre outras “logias”. Ela acreditava que se estudasse muito seria agraciada com o dom da premonição. O poder de prever os acontecimentos futuros era capacidade que só os mestres de mais alto nível possuíam.

Juntamente com os dezoito anos das moças, chegou a hora da separação delas. Cada uma seguiria seu rumo. Nos últimos dias de convivência elas ficaram ainda mais próximas, mas a inevitável despedida tinha de acontecer. Um dos últimos encontros foi assim:

- Pois é, Sally. Já está tudo acertado lá na agência de modelos da capital. Os caras lá falaram que minha carreira tem tudo para ser muito bem sucedida. Pena que a gente tenha que se separar.

- Uma pena mesmo.

- E você? O que fará?

- Tô juntando dinheiro há algum tempo. Você sabe.

- Sei, mas você nunca explicou ao certo o que fará com a grana.

- É que não tinha nada muito certo ainda. Mas agora já posso contar. Andei fazendo alguns contatos. Talvez eu finalmente consiga. Assim que possível, viajo para a Inglaterra. Para fazer o teste de admissão na ordem de bruxos JKHWAW (Joanne Khatlen Rowling Witchcraft And Wizardry).

- Apesar de achar isso uma tremenda besteira, eu fico feliz por você. Com esse dinheiro daria pra fazer tanta cousa melhor. Você poderia fazer tratamento de pele, lipoaspiração, contratar um personnal-trainner, colocar implante de silicone, essas cousas.

- Eu sou contra essas intervenções cirúrgicas apenas em nome da estética.

- Que bobagem! Eu mesma tô pensando em dar uma turbinada nos meus seios. Assim que chegar lá, farei isso...

Nesse exato instante, Sally escorrega e cai. Cai sem parar. Ela não sabia o que estava acontecendo. Continuava caindo. Até que finalmente se encontrou violentamente com o chão. Bip, bip. Passados alguns segundos ela se levanta e percebe que está em uma sala de cirurgia. Bip, bip. Ela fala, mas ninguém da equipe médica presente na sala a ouve. Bip, bip, bip. Ela se aproxima deles e vê sua amiga Connie na mesa de operação. Bip, bip, bip. Os médicos parecem estar preocupados. Bip, bip, bip. Sally observa que se trata de uma operação para implante de próteses de silicone em sua amiga. Bip, bip, bip. Um dos médicos diz: “A pressão está caindo”. Bip, bip, bip, bip. Alguém diz: “Vamos perdê-la”. Bip, bip, bip, bip, bip. E de repente... Bip, bip, biiiiiiiip. Os aparelhos ligados no corpo de Connie informavam que ela havia morrido. Nesse instante começa a chover.

Não, não era chuva. Sally abre os olhos. Vê que está deitada no chão e sua amiga Connie molhando-lhe o rosto para reanimá-la.

- O que aconteceu?

- Você caiu, sua tonta! Caiu e desmaiou por uns segundos. Tomei um susto!

Após refletir um pouco, Sally descobre o que aconteceu.

- Eu tive uma visão!

- Hã?!

- Tive uma visão! Você vai morrer se implantar silicone! Acabei de ver isso!

- Deixe de besteira! Você sabe que eu não acredito nisso!

- Você tem que acreditar em mim! O silicone vai te matar!

- Agora é que eu faço mesmo! Além de ficar mais bonita vou te mostrar que essa história de prever futuro e ter visões de morte é besteira! É melhor você ir pra casa! Você bateu a cabeça no chão! Vá cuidar desse “galo”.

No outro dia, Connie viajou, mas antes ainda ouviu algumas dezenas de apelos de sua amiga (“O silicone vai te matar!”).

Dois meses depois, Sally se mudou para a Inglaterra onde viria a morar pelos próximos sete anos. As duas garotas prometeram nunca pararem de se comunicar. Promessa essa que foi cumprida apenas durante os sessenta e seis primeiros dias de separação.

Passaram-se sessenta e sete anos e durante esse tempo muita cousa aconteceu com aquelas garotas. Connie seguiu o previsto. Iniciou carreira de modelo e se saiu muito bem, pois era realmente muito bonita. Logo começou a aparecer na TV. Virou atriz e tornou-se ainda mais conhecida. Depois de cinco anos dedicados exclusivamente às atuações, ela investiu na carreira de cantora. Lançou cinco discos e em todos conseguiu alta vendagem. Em todos os aspectos de sua vida profissional Connie havia se saído bem, não que ela fosse excepcionalmente boa no que fazia, mas por que seu trabalho tinha boa aceitação junto ao grande público.

Enquanto isso, Sally estudava e se aperfeiçoava nas artes ocultas da advinhação. Após os sete anos na JKRWAW ela saiu em peregrinação pela Europa e Ásia em busca de mais conhecimento. Tentava ela agora, controlar as visões que tinha, direcionando-as para acontecimentos específicos. Ela era uma vidente famosa e se sustentava por meio de contribuições recebidas em troca de ajudas, favores, previsões, estudos numerológicos e astrológicos que ela prestava à alta sociedade dos países por onde passava. Depois de sua jornada pelos confins do submundo sobrenatural, ela resolve voltar ao seu país de origem.

Numa dessas coincidências inexplicáveis as duas amigas pegam o mesmo avião. Na hora do desembarque acontece o reencontro. Sally é convidada a ir à casa de Connie. Após horas colocando o assunto em dia, resolvem sair para caminhar pelas ruas. “Como nos velhos tempos” disse Sally.

Saem pelas ruas, andando aleatoriamente. Lá estão elas. Juntas, felizes, distraídas e descuidadas. Não lembram que com o anoitecer aquela área tornava-se perigosa. Entram em uma rua pouco movimentada e desapercebidamente um pivete segue-as.

Mais á frente, o pivete as aborda com uma arma em punho anunciando um assalto. Com um movimento surpreendentemente ágil para uma senhora de oitenta e cinco anos de idade, Connie segura o braço do moleque e os dois começam a lutar calorosamente pela posse da arma. Como era de se esperar, a arma dispara. O pivete sai correndo com o braço sangrando muito. Sangrando não por causa do disparo e sim devido a uma mordida recebida. O tiro havia acertado o tórax de Connie.

Por causa do baixo calibre daquela arma, o projétil não perfurou nenhum órgão importante, porém a vítima desmaiou depois de alguns minutos perdendo sangue.

Ela foi levada para o hospital e lá recebeu o devido atendimento.

Sally, que também tinha ido ao hospital estava muito apreensiva e só se acalmou quando uma enfermeira deu notícias de Connie:

- Não se preocupe! A hemorragia já foi controlada. Ela tomou umas injeções e está dormindo. Vai ficar tudo bem.

Mas não ficou. A agulha usada para aplicar a injeção no glúteo direito de Connie furou a prótese que lá se encontrava, liberando o composto de silício que, ao entrar na corrente sanguínea, atingiu o cérebro provocando parada cárdio-respiratória e consequentemente a morte da mulher.

Como havia sido previsto, o silicone matou Connie.