Maria era uma criança normal. Saudável, inteligente, amável, enfim, era uma criança feliz. Porém havia algo que a deixava incomodada e profundamente triste: o gigantesco tamanho de seus pés.
As outras crianças admiravam-se da desproporcionalidade entre a estatura de Maria e as dimensões dos pés dela. Comentavam, apontavam, riam e alguns sujeitos chegavam a colocar-lhe apelidos. Esses sujeitos não eram poucos e, consequentemente, os apelidos também não. Maria passou a ser conhecida como Maria Sapatão.
Sua mãe a consolava dizendo que à medida que ela fosse crescendo, a desproporcionalidade diminuiria. Essa esperança fazia Maria agüentar as “brincadeiras” de seus “colegas”.
Entretanto, quanto mais Maria crescia, mais seus pés cresciam também. Aos vinte anos de idade Maria tinha que mandar fazer calçados sob medida, afinal, não é em toda loja que se encontra sapatos e sandálias tamanho sessenta e seis.
Todos os médicos que ela havia procurado até então disseram que nada podiam fazer em relação ao problema de Maria. Foi aí que ela conheceu a Dra. Frida Streiner.
A dra. Streiner era uma médica alemã e, logo que teve conhecimento, se interessou pelo caso de Maria. Constatou que ela padecia de hiper-desenvolvimento tarsiano metatársico, uma moléstia raríssima.
Frida Streiner convenceu Maria de que era possível fazer uma cirurgia para reduzir as medidas dos pés, mas deixou claro que seria uma cirurgia cara e perigosa, nunca realizada antes.
Maria foi a um programa televisivo dominical para conseguir recursos para custear seu tratamento. Após seus exagerados pés e dramatizações de sua vida serem exibidos durante todo o programa, ela conseguiu doações suficientes.
A dra. Streiner era a chefe da equipe de médicos que realizaria a cirurgia e assim que começaram os procedimentos pré-operatórios ela se ofereceu para ser responsável pela preparação psicológica da paciente. Explicava como seria a operação, alertava sobre os riscos, tranqüilizava Maria falando sobre o profissionalismo e capacitação da equipe etc.
Elas ficaram juntas durante a maior parte dos três meses da fase pré-operatória e seus laços de amizade se estreitaram. Um estreitamento excessivo, na opinião de alguns.
Maria sentia uma gratidão muito grande por Frida, diante da possibilidade de se ver livre dos pezões que tanto lhe causaram constrangimentos e aborrecimentos. À medida que dias foram passando, a afeição de uma para com a outra crescia, até chegar ao ponto em que elas se viram perdidamente apaixonadas. Um sentimento mútuo que se concretizou em algumas noites de intenso sexo lésbico.
Então, chegou o momento da operação. Dra. Streiner liderou a equipe competentemente e soube lidar muito bem com os imprevistos acontecidos durante a cirurgia. Cirurgia essa que, devido ao seu alto grau de dificuldade, durou aproximadamente oito horas, para cada pé, totalizando assim dezessete horas, contando a hora do almoço dos médicos.
A cirurgia obteve pleno êxito. Após noventa dias Maria já podia andar com seus novos pés que continuavam feios, porém pequenos.
Aproximadamente um ano depois, Maria se mudou para um país europeu, liberal e anti-conservadorista e casou-se com Frida. O curioso, contudo, é que, apesar de calçar trinta e três atualmente, ela continua sendo Maria Sapatão.
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