Desde que aprendeu a falar, Estrôncio dizia que queria ser famoso. Não importava qual seria sua profissão. Ele passava horas em frente ao aparelho de televisão admirando os famosos e se imaginando no lugar deles.
A primeira idéia foi ser atleta. Ganhar prêmios internacionais e representar o país com certeza o faria famoso. Mas sua inaptidão física para esportes em geral (raquitismo e asma) puseram fim à carreira esportiva.
Aos oito anos de idade, quando viu um grupo de crianças cantando em um programa de calouros, decidiu que seria cantor. Ele cantava razoavelmente bem. Não desafinava muito, tinha noções de ritmo, harmonia e melodia. Depois de muito batalhar no difícil mundo do mercado fonográfico, ele tinha conseguido convencer uma gravadora a fechar contrato. Porém a puberdade precoce atrapalhou sua carreira. Quando os hormônios masculinos espalharam-se pelo corpo do jovem rapaz, fizeram estragos irreparáveis em sua voz.
Na adolescência pensou em ser ator. Estar nas TVs do país inteiro emocionando as pessoas, rodar o Brasil com peças de teatro, ganhar o Oscar de melhor ator... Sim, isso seria possível, se Estrôncio não fosse tão feio e se não tivesse tanta dificuldade em decorar suas falas. A fama, com certeza, não viria de suas atuações.
Resolveu então ser cientista. Afinal ele sempre foi um ótimo aluno, sempre teve notas altas e tinha interesse por física, química e cálculo avançados. Essa sempre foi a intenção de seus pais, que desde o seu nascimento quiseram familiarizá-lo com as ciências, colocando-lhe o nome do elemento trinta e oito da tabela periódica dos elementos químicos.
Estrôncio entusiasmou-se com a idéia, pois, se conseguisse desenvolver algum experimento científico revolucionário, ele ficaria famoso. E o melhor é que ele conseguiria essa fama fazendo algo que ele realmente sabia fazer.
Depois de muitos anos de estudo, Estrôncio conseguiu o título de físico especialista em pesquisa de partículas subatômicas e decidiu aumentar seus esforços nessa área, sempre visando ficar mundialmente famoso.
E assim aconteceu. Tempos depois, ele realizou com sucesso o feito que faria dele um grande nome da ciência: geração espontânea de matéria, anti-matéria e radiação a partir do vácuo absoluto. Alguns cientistas já haviam conseguido isso, é fato, mas as partículas obtidas eram pouquíssimas e muito fugazes. Mas Estrôncio não. Ele tinha feito melhor. Havia criado um pequeno universo. O primeiro homem a fazê-lo. Ele se sentia um deus. Ele, irremediavelmente, seria famoso.
Ao divulgar os resultados de sua pesquisa, Estrôncio foi condecorado por toda a comunidade científica e ganhou inúmeros prêmios, como era de se esperar, dado o estudo que realizara com êxito. Mas o que ele queria mesmo era ser conhecido pela população
Quando percebeu que seus objetivos não foram plenamente alcançados depois de todo esforço e empenho, Estrôncio se viu em meio a uma profunda crise de depressão. Ele não enxergava mais nenhum jeito de ficar famoso. Estava desesperado. No estado em que estava ele seria capaz de qualquer cousa.
Ligou a TV, pegou uma garrafa de uísque e tentou se distrair um pouco. Três horas mais tarde, totalmente ébrio, ele assiste a um programa que mostra os mais famosos bandidos e criminosos dos tempos modernos. A visão da fama conseguida por assassinos como o Bandido da Luz Vermelha, Maníaco do Parque e Fernandinho Beira-Mar, misturada com seu intenso desejo de ser famoso e com toda a quantidade de álcool em seu organismo transformaram Estrôncio num assassino maníaco, frio e calculista.
Conseguiu comprar alguns fuzis e metralhadoras de alguns traficantes de armas e matou centenas de crianças na porta de escolas, matou pessoas em cinemas e matou, de forma excepcionalmente brutal, seus pais, pois esse era o crime da moda.
Negociou materiais explosivos com alguns palestinos, construiu diversos tipos de bombas terroristas (bicicleta-bomba, bola-bomba, chiclete-bomba, bebê-bomba, entre outros) e explodiu sedes de emissoras de TV (por não ter sido artista), palcos de super-shows (por não ter sido cantor), o avião da delegação olímpica (por não ter sido atleta), bem como outros alvos aleatoriamente escolhidos.
Não se contentando em aterrorizar seu próprio país, o protagonista dessa história resolve direcionar suas atividades para alvos no exterior. Fez contatos com militares russos e pegou emprestadas algumas bombas jogando-as na região da Caxemira, fato esse que quase provocou a Terceira Guerra Mundial.
Depois disso se entregou às autoridades. Foi julgado por um tribunal internacional e condenado à morte por eletrocussão. Durante o período em que permaneceu no corredor da morte, ele concedeu inúmeras entrevistas para TVs de todo o mundo, ficou mundialmente conhecido e serviu de exemplo para insanos de todo o planeta.
Então, às sete horas e seis minutos (horário local) do dia seis de junho, Estrôncio foi eletrocutado até suas funções vitais pararem. Morreu com um débil sorriso no rosto, pois sabia que sua morte seria transmitida ao vivo para aproximadamente um bilhão de pessoas espalhadas pelo mundo, fato esse que o tornaria o mais famoso da história.
2 comentários:
poxa...
Me emocionei com o fim aqui...
mas a bicicleta-bomba, bola-bomba, chiclete-bomba e o bebê-bomba, foi o mais comédia!!
kkkkkkkkkkkkkkkkkk...
Nossa, está se mostrando um exímio escritor!
Andou estudando Qu[imica pra compor o conto, foi?!
Bjãos
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